Buenos Aires, Parte 1

Depois de 8 anos trabalhando em São Paulo praticamente sem férias, percebi que era hora de fazer um mochilão. Como se diz em inglês, eu tinha sido picado pelo “bicho de viagem”: uma vontade absurda, incontrolável, de largar tudo para trás e sair em direção ao desconhecido, ao novo, a uma vida imprevisível novamente.

Bandeira ArgentinaSempre quis conhecer a América do Sul inteira e depois de ler “Diários de Motocicleta”, de Che Guevara, decidi que queria fazer uma viagem como a que ele fez, exceto pela motocicleta (quem leu o livro sabe que ela não durou muito). E o lugar mais lógico para começar a jornada seria Buenos Aires. Assim desembarquei na capital argentina em um dia de céu cinzento e calor intenso de Fevereiro.

Eram 8h da manhã quando entrei na recepção do Milhouse Hostel, o albergue mais famoso de Buenos Aires, considerado um dos melhores do mundo por suas festas e agitação. É quase um Club Med para mochileiros. E eu não tinha reserva, mas dei sorte por que era quarta feira e ainda haviam camas.

O recepcionista argentino foi me dando as instruções básicas sobre onde ir e como andar pela cidade e disse que havia “quatro coisas que eu tinha que fazer em Buenos Aires: comer um churrasco a la Parrilla, aprender a dançar Tango, assistir um jogo do Boca Juniors e transar com uma argentina.”

Ele também me deu um papel com a programação semanal do albergue. Mais parecia a de uma academia de ginástica, haviam atividades todos os dias da semana, de manhã, a tarde, a noite e de madrugada. Entre visitas a feiras, museus, cemitérios, discotecas e festas no próprio albergue, o difícil seria acha tempo para dormir.

buenos_aires_hostels_11_1Paguei as três primeiras noites e subi para o meu quarto.  A casa era uma antiga mansão reformada e mais parecia um hotel. Definitivamente não é um albergue comum, vindo de quem já passou por mais de 50 hostels. O enorme bar atrás da recepção estava repleto de jovens europeus comendo e bebendo. As suítes eram limpas e grandes, com quatro beliches em cada quarto. Mas meu quarto estava vazio, para minha surpresa. Coloquei minha mochila no enorme armário, tranquei e saí andando pela cidade.

DSC00093A reputação de “capital mais europeia” da America do Sul não poderia ser mais justa para descrever BA. Os prédios coloniais estão por toda parte, os cafés com mesas na calçada, as estátuas dos grandes heróis nacionais, os enormes parques de Palermo poderiam muito bem estar em Paris ou Madrid. Mas a cidade vai além e também possui regiões que não poderiam jamais estar em outro continente. É o caso de La Boca, o famoso bairro portuário de Buenos Aires. E este seria meu primeiro destino.

A minha primeira surpresa foi com o transporte público da cidade. Os ônibus são velhos como quase tudo em Buenos Aires mas a passagem custa apenas R$0,50. E um bilhete de metrô sai por pouco mais de R$1. Maravilha.

caminitoConstruído por imigrantes Napolitanos há dois séculos, o porto de La Boca hoje fica próximo a região mais turística de Buenos Aires, o Caminito. Formado por algumas ruas ao redor de dois quarteirões, ele parece ter sido criado só pra impressionar turistas, com suas paredes e telhados multi-coloridos, garçonetes sorridentes, apresentações de Tango na rua, dançarinos prontos para posar para fotos com turistas em posições desconcertantes, o famoso estádio da Bombonera e seu museu, todos os tipos de souvenirs a venda, os tradicionais alfajores Havana e o convidativo cheiro do churrasco a la Parrilla remetem a quase todos os ícones de Buenos Aires.

La Boca, Restaurante La Vieja RotiseriaAndando pelas ruas do Caminito se tem a impressão que estamos em um dos destinos turísticos mais visitados do mundo, comparável na América do Sul apenas com o Rio de Janeiro. La Boca é um bairro considerado pobre, afastado das regiões mais abastadas da cidade, mas a criação do Caminito como destino turístico é no mínimo uma idéia brilhante. Em um lugar onde não havia nada, foi criado um parque temático aberto ao público, e o tema, como não poderia deixar de ser, é a própria cultura local. O equivalente ao Caminito no Brasil seria um lugar com mulatas dançando e baterias de escolas de samba tocando nas calçadas, ao lado de rodas de capoeira, restaurantes servindo feijoada e acarajé. Um lugar onde a música, a dança e a culinária se encontrariam e produziriam um espetáculo cultural para os olhos, tudo em um espaço de dois quarteirões. Imagine se tivéssemos um lugar assim em São Paulo! Temos muito o que apreender com nossos vizinhos argentinos sobre como potencializar o turismo no Brasil.

Protesto Buenos AiresNo caminho de volta, me deparo com um grande protesto na Av. de Mayo. Batendo panelas, estudantes, trabalhadores, membros de entidades sociais protestavam contra a “Mineria de Cristina”, uma enorme mina de ouro a ser construída há 5000 metros de altitude na divisa com o Chile e que colocaria em risco três glaciares na região. E também contra a Ley Antiterrorista, que permitiria ao governo prender qualquer pessoa suspeita de terrorismo sem acusação formal. Em um país onde existe uma tensão social muito grande, onde a mídia é quase totalmente controlada pelo estado, onde as pessoas estão acostumadas a protestar contra o governo quase que diariamente, qualquer pessoa que se engajasse em uma campanha contra o estado poderia ser considerado ‘terrorista’. Cartazes exibiam rostos e nomes de ativistas ‘desaparecidos’ enquanto suas mães e familiares exigiam explicações. Em pleno século XXI, a Argentina ainda vive os resquícios da ditadura e a liberdade de expressão está longe de ser um direito garantido. Nesse aspecto o Brasil está bem mais desenvolvido. Nós aqui temos direitos que hoje consideramos normais, básicos, mas que em outros países da América do Sul as pessoas ainda estão por conquistar.

De volta ao albergue, entrei no meu quarto e desta vez o encontrei cheio. Sete outros mochileiros haviam feito o check-in: dois israelenses, um recém saído do exército que veio para uma viagem de 6 meses pela América do Sul e o outro um engenheiro que veio visitar a sua irmã que mora no Chile; um casal de Brasília que veio mochilando pela costa sul do Brasil; outra brasileira de Goiânia que veio passar apenas uma semana em BA (esta tecnicamente era turista); um alemão de uns 40 anos que era mochileiro profissional há uns 20 anos e contava histórias de lugares que passou nos quatro cantos do mundo e um jovem inglês que também veio para passar uns meses mochilando pela America do Sul. Em poucos minutos estávamos conversando e dando risadas como velhos amigos.

Contei para o casal de brasileiros as quatro coisas que, segundo o recepcionista do albergue, eu ‘tinha’ que fazer em Buenos Aires e ele deu risada. Mas a namorada virou e disse: “No seu caso, são três.”

milhouse-hostel-ba-milhouse-hostel-buenos-aires-capital-federal-districtEu e meu novo grupo de amigos instantâneos fomos então a festa que acontecia no bar do hostel, que mais parecia uma discoteca agora com centenas de pessoas dançando na pista. Foram exatamente as festas que fizeram a fama do Milhouse como o primeiro ‘party hostel’ da América do Sul e lhe colocou no top 10 dos melhores albergues do mundo.

Depois da festa fomos para o Terrazas, uma das duas maiores baladas da cidade (a outra é a Pachá). Lá conheci dois jovens portenhos de classe média-alta que foram muito simpáticos, e demonstraram um afeto que é bem diferente do que se vê no Brasil. E foi ali que comecei a perceber uma coisa sobre os argentinos: eles vivem intensamente. Quando saem pra se divertir, eles se divertem mesmo. Quando gostam de alguém, eles gostam mesmo. Mas também (como eu veria mais tarde) quando ficam irritados, eles ficam irritados mesmo.

Isaac Brum (isaac_brum@yahoo.com.br)

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