Eco Yoga Park, Argentina, Parte 1

Eco Yoga Park_01Depois de passar alguns dias e noitadas em Buenos Aires resolvi ir para o Eco Yoga Park, uma fazenda Hare-krishna há 1h30 min da cidade, onde viajantes podem praticar Yoga e meditação, trabalhar em uma horta orgânica totalmente livre de agrotóxicos, aproveitar uma dieta vegetariana, entre outras coisas. A fazenda pode ser visitada por um dia ou você também pode dormir lá e ficar o tempo que quiser.

Para chegar lá, tive que pegar um ônibus até Gerenal Rodriguez, uma pequena cidade na grande Buenos Aires e depois um taxi. No caminho o taxista me disse que todo dia traz uma, duas, três pessoas para a fazenda, de todas as partes do mundo, Alemanha, Estados Unidos, Israel, Austrália. Chegamos por volta das 17h, o sol estava se pondo quando entrei na sala de jantar e encontrei Jean, o “gerente”. Com a cabeça raspada e aquele típico “mini rabo-de-cavalo” atrás da cabeça, ele me recebeu com um sorriso e me deu boas vindas. Pediu para que eu anotasse meu dados no livro de hóspedes e me levou até o meu quarto.

Funciona como um albergue, você paga pela acomodação (de R$30 a R$50 por noite, dependendo do tempo que você quer ficar). Neste preço estão incluídas quatro refeições por dia, café da manhã (pão integral, frutas e chá), almoço (arroz, massas, grãos, verduras, sobremesa), lanche da tarde (bolo ou pão com chá) e jantar (parecido com o almoço, uma vez por semana eles servem pizza vegetariana).

Os hóspedes, mochileiros em sua grande maioria, ficam espalhados em casas diferentes, todas simples mas bem cuidadas. A casa principal tinha cinco quartos e um banheiro. Cada quarto para quatro pessoas, com duas beliches. Não havia televisão, rádio e nem ar-condicionado. As outras casas são parecidas e há também “casas de árvore”, construídas apenas com material coletado na própria fazenda, como madeira, argila e garrafas pet.

Coloquei as coisas no meu quarto, onde eu seria o único hóspede, e fui dar uma volta pela casa. A sensação de isolamento é grande. Embora esteja há apenas 60km de Buenos Aires, poderíamos muito bem estar bem no meio dos pampas, ou mesmo no meio do pantanal, tal era o silêncio e tranquilidade do lugar. Lembrei de quando era criança e ia visitar a chácara do meu avô na divisa de Goiás e Mato Grosso. A calma, a paz, o cantar dos passarinhos, todas coisas que a maioria de nós, moradores de grandes cidades, não estamos acostumados e há um “choque” natural quando chegamos em um lugar assim, principalmente quando você está sozinho e não conhece ninguém.

Ao sair pela porta do fundo conheço Phuong, uma garota australiana de origens tailandesas de vinte e poucos anos. Simpática, ela me conta que chegou ali há três dias, veio com uma amiga mas que no primeiro dia caiu uma tempestade e a fazenda ficou sem eletricidade, então a amiga dela resolveu voltar para Buenos Aires.

Pergunto a ela sobre a rotina na fazenda e ela me diz que acordam ao amanhecer para trabalhar na horta. O trabalho inclui colher os legumes e verduras, tirar as ervas daninhas do campo, arar a terra com a pá etc. Ás 8h todos param por cerca de 40 minutos para o café-da-manhã, que já está servido na mesa de fora da casa principal, e então voltam ao campo para trabalhar mais duas ou três horas. Por volta das 11:30 todos são liberados para tomar banho e se prepararem para o almoço. Ela me conta que depois do almoço há um tempo para descanço e que á tarde há sessões de Yoga e meditação. Duas vezes por semana o Swomi (equivalente ao que seria um “padre” para os Hare-krishna) dá palestras e responde perguntas dos hóspedes sobre a doutrina e os hábitos Hare-krishna, ou qualquer outra coisa que queiram perguntar. Por volta das 19h é servido o jantar e depois quem quiser pode assistir um filme na sala de vídeo.

Logo outros hóspedes começam a aparecer na casa e então conheço Camila, uma chilena de vinte e poucos anos que estava lá há algumas semanas. Quando digo que sou brasileiro ela se anima e começa a falar algumas palavras em português que aprendeu com uma amiga. Símpatica e doce, Camila e eu ficamos amigos de cara e mais tarde, na hora do jantar ela me apresenta Eric e Maria. Eric é do Arizona e está viajando na América do Sul de bicicleta há um ano e meio, se não me engano disse que já havia passado por quase todos os países. Maria é peruana e eles se conheceram quando ele passou por Lima alguns meses antes, então combinaram de se encontrar em Buenos Aires para virem para a fazenda juntos.

Enquanto Eric contava suas aventuras sobre duas rodas pelas estradas da Colômbia, Chile, Peru, eu mal pode acreditar. Ele carregava todas as suas coisas na bicicleta e quando estava viajando, pedalava por horas e armava sua barraca ao anoitecer, dormia na beira de estradas, em parques nacionais, postos de gasolina, campings. Tudo isso sozinho e gastando o mínimo possível. Contou que várias vezes conheceu pessoas que o convidaram para jantar e dormir em suas casas, elogiou em especial os colombianos pela hospitalidade e simpatia.

Depois do jantar, temos que levar os pratos para lavar na pia, cada um lava o seu. Os restos de comida são deixados em um tanque onde o cachorro da fazenda, um manso pastor alemão chamado Rocky, escolhe meticulosamente o que quer comer. De volta a casa, os mochileiros socializam, tocam violão, contam piadas e vão dormir cedo. Quando fui para o meu quarto comecei a pensar no quanto esse lugar tinha uma vibração diferente, um ar de companheirismo, e ao mesmo tempo já me sentia um pouco em casa, experienciando uma estilo de vida totalmente diferente do que eu estava acostumado.

Isaac Brum (isaac_brum@yahoo.com.br)

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